breaking news

Os rumos do jornalismo esportivo movimentam debate com Kfouri e Trajano

junho 30th, 2017 | by Redacao
Os rumos do jornalismo esportivo movimentam debate com Kfouri e Trajano
Reportagens
0

A sede do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo estava repleta de jornalistas, estudantes e interessados em jornalismo esportivo. O assunto, aliás, foi o tema do debate organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé que promoveu o lançamento do livro “Ataque e Contra-Ataque – O Jornalismo Esportivo na Perspectiva de duas Trajetórias Profissionais” de autoria de Edney Mota Almeida, que contou com a presença de Juca Kfouri e José Trajano.

Os dois profissionais renomados da comunicação, mediados por Edney e demais jornalistas, discutiram os rumos da imprensa esportiva no cenário atual, assim como as divergências existentes entre as áreas de jornalismo e publicidade, a presença das mídias alternativas, o papel da mulher e do negro no meio esportivo, a importância do fotojornalismo na busca de momentos que ilustram a paixão do torcedor de futebol e necessidade do diploma para o exercício da profissão.

Logo no início, o autor de “Ataque e Contra-Ataque” afirmou que muitos profissionais acabam indo para outros campos de atuação, como é o caso da publicidade, por falta de oportunidades de atuar realmente na área esportiva. “Se a gente quer um jornalismo mais combativo, investigativo, atuante, é preciso pensar em um outro modelo de pais”, disse Edney. “Todos nós temos que trabalhar a ética”, frisou, lembrando ainda que é necessário separar as linguagens jornalísticas das publicitárias.

Para José Trajano, considerado um dos fundadores da ESPN Brasil, “a teoria e a prática são diferentes”, quando perguntado sobre a necessidade de se haver a separação das áreas de jornalismo e de publicidade.

“A postura do jornalista esportivo era a postura do alienado”

O jornalista declarou que, apesar das recentes mudanças que o jornalismo esportivo vem sofrendo, “é muito complicado você se posicionar nesse meio e falar aquilo que você pensa”.

“Essa formação política que eu e o Juca temos vem da época dos amigos e, principalmente, do Brasil que vivemos. Vivemos um ano de chumbo. E naquela época, de tortura, o jornalismo esportivo ficava muito ausente do que acontecia no pais. A postura do jornalista esportivo era a postura do alienado. Mas como há exceções, tiveram muitas pessoas que brigaram muito e que eram elementos da imprensa esportiva”, contou.

“Mas o que é imprensa esportiva? Do jornal? Do rádio? Da revista?”, questionou logo em seguida. “Os jornais hoje estão diminuindo. Há falhas. Antigamente tinha jornal que tinha 12 páginas de esportes. Hoje está muito difícil haver isso”, analisou.

Sobre as costumeiras mesas redondas que fazem parte do jornalismo brasileiro na televisão, Trajano pontuou: “essas mesas redondas não refletem o pensamento do torcedor. Querem impor um pensamento que eles querem ao torcedor”.

“Hoje tem algo que me irrita muito que é a mania das TVs colocarem um televisor grande e ver um jornalista levantar e explicar como que o Corinthians vai jogar. Agora, você bota o dedo lá e anda… de que serve aquilo? Onde está o talento? Não existe naquilo ali. O jornalista hoje está se prendendo naquela tecnologia e acha isso um barato e perde a chance de ser a ponte com o torcedor. É o representante da tecnologia, o chamado ‘engraçadinho’. E tem muita gente que gosta e segue. Nas emissoras de rádio tem sempre o ‘engraçadinho’ falando e ainda com publicidade no meio”, criticou.

Molecada competente no esporte e chefias problemáticas

José Trajano prosseguiu ao dizer que “o jornalismo esportivo não pode ser a causa de todos os males”. “Tem muita gente ruim, mas tem muita gente boa”, destacou.

“Tem uma molecada no esporte que é competente. Mas as chefias é que são o problema, pois não permitem que você avance numa pauta e cresça. Eu mesmo, com a minha macaquice política, fundador de um canal, levei um pontapé na bunda. Imagina quem é novo”, falou.

O jornalista aproveitou a ocasião para fazer um alerta: “muita gente jovem que sai da faculdade tem péssimas referencias e acha que seu talento pode ser reconhecido se colocar a cara no vídeo. Uma coisa é a prática e outra coisa é a teoria. Na prática, o ‘borogodó’ é outro. Mas as referências ainda são muito ruins”.

“Não existe uma imprensa esportiva no Brasil”

Ao chegar a vez de Juca, o mesmo reforçou as palavras de Trajano ao esclarecer que há pessoas de boa qualidade no mercado, contudo, “não existe uma imprensa esportiva no brasil. Temos diversas”.

Na sua visão, “a melhor (mídia) que faz jornalismo está tomando conta da internet ou do jornalismo impresso” e disparou: “eu nunca vi um mercado tão ruim. Mas nunca vi esse mercado tão bom”.

“Nunca vi ninguém sair da faculdade e ter acesso as redações”, confessou e, em seguida, aconselhou a plateia: “mas acredite no seu talento, no seu taco. Não interrompa seu sonho. A questão da alienação é muito mais grave. A elite sempre impediu que as camadas mais humildes estudassem”, explicou.

“Nós temos exemplos de negros e mulheres no esporte”

Kfouri enfatizou que atualmente não é o caso de discutirmos se a imprensa esportiva em geral é um exemplo do bom ou do ruim, e sim, sua postura nos últimos tempos referente à poucas oportunidades oferecidas tanto às mulheres quanto aos negros:

“Nós não vamos discutir a imprensa esportiva como o exemplo de bom e ruim. Nós temos exemplos de negros e mulheres no esporte. Todos os meus quatro chefes eram mulheres”, contou. “Um deles era o Jose Trajano, mas não coloco minha mão no fogo por ele”, brincou.

Sobre o assunto mídia alternativa, Juca resgatou que, naquelas épocas em que havia a censura por parte dos mecanismos da ditadura, esta espécie de imprensa era conhecida como a “imprensa nanica”, realidade que se transformou com o transcorrer dos anos.

“Jornalista que faz propaganda quer ferrar a profissão”

Os rumos do jornalismo esportivo movimentam debate com Kfouri e Trajano (2)Quando abordou as diferenças entre jornalistas e publicitários e a atuação de ambos os profissionais no campo esportivo, o blogueiro do portal Uol observou:

“É evidente que os inimigos da boa imprensa esportiva não são apenas os que fazem propaganda. Mas é evidente que o jornalista que faz propaganda confunde o público. Eu conheço um bando de jornalistas que fazem propaganda e colocam o dedo na ferida, como também conheço aqueles que são maus caracteres, mas não fazem propaganda. Jornalista que faz propaganda quer ferrar a profissão. A profissão nossa nos distingue e não é tachada. E a sociedade tem todo o direito de ter seus instrumentos de controle”.

Por sua vez, Trajano completou: “esse conflito de não estabelecer a divisão de quem faz merchandising e quem não faz (…) eu acho que o problema do jornalismo esportivo não se esgota nisso. Quem está no dia a dia convive com outro tipo de conflito. Essa alienação só cresce e é um pessoal que nada tem a ver com merchandising e que tem horror a povo e se bastam em discutir futebol. Darci Ribeiro me ensinou muito. ‘Essa gentinha medíocre…’. Pega ele (Darci) falando da elite brasileira e você coloca essa frase, e aí, você pode colocar para uma grossa parte de jornalistas esportivos. É uma questão da alma o futebol”.

A vida não está no telão

Depois, Juca esclareceu que “nós podemos aprender em qualquer espaço educativo”, porém, “na academia, há um preconceito muito grande para quem estuda muito futebol. Para o pensamento deles, o futebol é o ópio, o pão e circo do povo, um espetáculo”.

“Poucos escrevem bem sobre futebol. O Tostão é capaz de analisar um jogo, decupar taticamente. Ele é permanente o observador do detalhe. A vida não está no telão. O que me apaixonou e me fez ir de vez ao futebol é tentar interpretar a alma nacional pelo futebol”, revelou Kfouri.

Trajano, ao instigar a falta de detalhamento nas notícias esportivas, novamente, indagou o público: “Como é que eu faço para cobrir um jogo de futebol?”. Logo, respondeu: “começe a prestar atenção em tudo”. E na sequência, citou o exemplo do América-RJ, seu time de coração:

“Você vai ver um jogo do América-RJ e ver a torcida, tomar uma cachaça, chorar junto. O jogador volta no trem com você. Isso é torcer até morrer”, lembrou.

O espaço da mulher no jornalismo esportivo

Acerca deste tema, uma das mediadoras do debate, Raisa Rocha, afirmou que este “é um caminho bem longo”, uma vez que “a mulher não é naturalizada na mídia, no esporte”.

A profissional de comunicação é uma das idealizadoras do web-projeto “A Bola que o Pariu” que discute o papel da mulher no futebol. “No site, tentamos achar o espaço da mulher para falar do homem jogando bola”, disse.

Raisa também admitiu que no jornalismo independente, sobretudo na mídia alternativa, é possível ter mais espaço para falar sobre esportes diversos e com a liberdade que não existe nos grandes veículos.

“É incrível o número de sites e blogs movimentando o futebol feminino. Está tendo um movimento muito grande nas redes sociais, mas não nas grandes mídias”, analisou Trajano. “A dificuldade da mídia alternativa é grande, mas essa é uma solução ao problema. É ali que a gente vibra com o jornalismo. É ali que está sendo praticado o verdadeiro Jornalismo de hoje”.

A fotografia esportiva

“Eu tenho um filho fotógrafo. Ele tem um olho muito especial. Se recusa a se curvar a uma indústria que acha aquilo que considera o que é belo. Ele fez a cobertura do Corinthians na Série B (em 2008)”, revelou Juca Kfouri, para depois explicar que hoje em dia, “você cada vez mais perde a alma das fotos esportivas”. Ou seja, não há mais o olhar de quem se detém por alguns minutos a fim de conferir a imagem obtida através do ofício jornalístico.

“Você até acerta sem querer algumas imagens, mas é porque o disparador pegou e captou. Eu faço questão de colocar uma foto no meu blog (acompanhada de suas matérias), mas elas são todas iguais. Infelizmente, na sociedade da imagem, a fotografia está virando supérflua e os fotógrafos estão deixando de fotografar para virarem cineastas”, desabafou Kfouri.

“Como era gostoso a união do texto com a fotografia. A época que o Jornal da Tarde transformava a foto numa capa brilhante”, completou Trajano, referindo-se a uma das capas mais emblemáticas do periódico na qual havia um menino com os olhos escorrendo lagrimas durante uma Copa do Mundo.

Questão do diploma

Por fim, um dos últimos temas da noite foi a necessidade ou não do uso do diploma para o exercício da profissão jornalística. Neste tópico, Juca explicou que “as técnicas de jornalismo você aprende numa redação em dois meses. Num curso, em mais tempo”.

“O papel está desaparecendo e os meios de comunicação não estão sabendo lidar com isso. Temos o problema da crise do desemprego que é dramática, como nunca tinha acontecido antes no Brasil”, acrescentou. Entretanto, em seu ponto de vista, “não é isso que define o fechamento e a abertura do mercado”.

Por Leandro Massoni Ilhéu

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

UA-92541561-1